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O Amor em Ruínas: The Weeknd e a Falência do Afeto na Cultura Contemporânea

  • Foto do escritor: Sarah Alves
    Sarah Alves
  • 6 de mai. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 7 de mai. de 2025

Uma visão niilista do amor nas letras de The Weeknd, refletindo sobre as relações descartáveis da modernidade líquida.


Por Sarah Pereira Alves



Em tempos marcados por relações instáveis, desapego romantizado e afetos transformados em alimento do ego, The Weeknd (Abel Makkonen Tesfaye) surge como a voz que traduz a inquietação emocional de toda uma geração. Ele é cantor, compositor, ator e produtor musical canadense. Emergiu na indústria em 2010, conquistando reconhecimento com músicas que mesclavam R&B, soul, dance, eletrônica, pop e hip hop. Com o tempo, consolidou-se como um dos artistas mais influentes da música popular contemporânea, sendo vencedor de muitas premiações e categorias como Grammy Awards, Billboard Music Awards e American Music Awards. Sua versatilidade sonora, marcada por lirismo sombrio, suas produções abordam escapismo, romance e melancolia, e frequentemente são inspiradas em suas vivências pessoais — elementos que o tornaram um ícone da cultura pop atual.

Vivemos em uma era em que tudo parece estar disponível — menos o afeto real. As juras, antes escritas em cartas ou por cortejos, hoje — quando feitas — perdem seu valor, e somem tão rápido quanto foram digitadas. Os encontros perdem o “timing”, duram o tempo de uma notificação, marcados por aplicativos onde se navega entre perfis como em um cardápio de restaurante. E os términos? Acontecem por mensagens curtas ou pelo simples ato de não responder — o temido “ghosting”. É nesse terreno emocional devastado que as músicas de The Weeknd encontram ressonância profunda. Elas não apenas retratam o amor em ruínas, mas encarnam, com precisão cruel, o emocional de uma geração saturada de conexões e carente de vínculos. Seu universo sonoro — sensual, sombrio e confessional — escancara a falência afetiva do nosso tempo. O amor contemporâneo tem sido cada vez mais esvaziado de permanência.

Em Amor Líquido, o sociólogo Zygmunt Bauman descreve uma era em que os vínculos afetivos se tornaram frágeis, instáveis e facilmente descartáveis. O medo da dor, da dependência e da entrega dá lugar a conexões rápidas e utilitárias, pautadas pelo prazer imediato e sem responsabilidade afetiva — relações que começam e acabam com a mesma facilidade de um clique. Essa lógica se manifesta de forma contundente em “Heartless”, onde The Weeknd dramatiza a figura de um homem emocionalmente devastado. Ele oscila entre tentativas frustradas de mudança — “I try to always do right / I thought I lost you this time” — e recaídas em ciclos de autossabotagem: excessos como mecanismos de fuga — “Amphetamine got my stummy feelin' sickly”. A repetição de “'Cause I'm heartless” soa como mantra e confissão, revelando não frieza, mas um sujeito preso à própria ruína. O amor, nesse cenário, torna-se efêmero e consumível — um produto, como diagnostica Bauman, da lógica líquida dos afetos.

Mas se Bauman vê o amor líquido como resultado de uma modernidade que transformou tudo em consumo, Jacques Lacan em O seminário, nos leva a um ponto ainda mais profundo. Para ele, o sujeito é, por estrutura, carente: desejamos aquilo que nos falta, mas essa falta nunca se preenche de fato. O amor, então, é um jogo de projeções, onde a presença do outro jamais preenche o “vazio” do ser. Essa concepção aparece dilacerada nas canções de The Weeknd, como em "Call Out My Name", em que o artista mergulha na dor de um amor não correspondido. Há aqui o sacrifício feito em nome do afeto: “I almost cut a piece of myself for your life”, mas também o reconhecimento de que esse gesto foi em vão. Expondo o impasse entre querer ser amado e nunca ser plenamente acolhido.

Há um aspecto ainda mais perverso na dinâmica contemporânea do afeto: a hiperconexão que aprofunda o isolamento. Em um mundo saturado de imagens, curtidas e performances, amar se tornou espetáculo — uma encenação sem vínculo real. Essa lógica foi prevista por Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, vivemos sob a tirania das aparências, onde o outro é amado não pelo que é, mas pelo que representa. Essa crítica ecoa em Save Your Tears, abordando a dificuldade de se comunicar e uma disfuncionalidade no enfrentamento de problemas. No clipe, o narrador reconhece tardiamente a dor que causou, se apresenta com o rosto “deformado” por procedimentos estéticos para uma plateia mascarada e inerte. A arma que dispara confetes simboliza o esvaziamento afetivo: a dor vira estética, a emoção vira performance. The Weeknd, se torna simultaneamente produto e crítico desse sistema. Na música, a catarse vem com o refrão, mas o vazio — esse, permanece depois que a música acaba.

Nessa lógica de ausência e vertigem afetiva, Hilda Hilst emerge como voz feminina ancestral que antecipa a falência do amor idealizado. Em seus poemas, o desejo é abismo e redenção. O erotismo é labirinto. O amor, ruína. “De te amar, possuída de ossos e de abismos / Acredito ter carne e vadiar / Ao redor dos teus cimos (...) Do muito desejar altura e eternidade/ Me vem a fantasia de que Existo e Sou” (HILST, 2004, p. 103) — versos que condensam a entrega corporal ao delírio do desejo e à ilusão da completude.

Essa dependência afetiva se converte, em Hilda, ora em gozo, ora em desespero. O corpo ama, mas odeia o que ama — espelho da ambivalência que The Weeknd encarna em "The Hills", quando diz: “I only call you when it’s half past five / The only time that I’ll be by your side.” O amor se torna vício noturno, condicionado à escuridão e ao interdito. Em outro momento: “When I'm fucked up, that's the real me”, revelando que sua identidade só emerge no colapso — no ponto em que o afeto se mistura ao vício, ao sigilo, à carnalidade. Essa ambivalência ecoa na poética de Hilst: “Porque há desejo em mim, é tudo cintilância” (HILST, 2004, p. 17).

Ambos expõem o afeto como experiência fragmentada, líquida, marcada pelo excesso e pelo nada. O que sobra são corpos que se entrelaçam para depois se afastar; palavras ditas com fúria ou ternura, mas nunca com estabilidade. Emoções que escorrem pelos dedos como o amor líquido de Bauman, como a falta inassimilável de Lacan.

No fim, resta a pergunta — ainda é possível amar na era das conexões instantâneas e dos sentimentos voláteis?



Referências: 


BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução e paráfrase: Railton Sousa Guedes. Editoração e tradução do prefácio: Coletivo Periferia.

LACAN, Jacques. O seminário: livro 6 – O desejo e sua interpretação. Tradução: Traço Freudiano, Veredas Lacanianas – Escola de Psicanálise. Disponível em: http://www.traco-freudiano.org. Acesso em: 5 de maio de 2025.

The Weeknd. After Hours [Álbum]. XO / Republic Records, 2020.

The Weeknd. Beauty Behind the Madness [Álbum]. XO / Republic Records, 2015.

The Weeknd. Starboy [Álbum]. XO / Republic Records, 2016.

HILST, Hilda. Do Desejo. 2004.


 
 
 

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